Há não muito tempo, foi feita nos
Laboratórios Federais Suíços para a Ciência e Tecnologia dos Materiais uma
descoberta invulgar: sabendo já que o som se propaga mais rapidamente através
de madeira saudável do que através da que é afectada por fungos, Francis
Schwarze veio a descobrir que certos fungos afinal não abrandam o som. Como
experiência, projectou a criação de violinos com madeira infectada com esses
fungos (Physisporinus vitreus e Xylaria longipes), vindo a concluir que
soavam tal e qual um Stradivarius (género de violinos produzido por Antonio
Stradivarius no séc. XVII e início do séc. XVIII). Num teste realizado em 2009,
comparou-se o som produzido por um violino moderno de madeira fungosa com
aquele que emitia um Stradivarius feito em 1711: um júri de especialistas, bem
como a maioria da audiência, pensou que o Stradivarius era o violino
“infectado”*.
Algo de parecido se passou na história do
Contencioso Administrativo. Até à Revolução Francesa, a intervenção dos
parlamentos (tribunais), sobretudo no crepúsculo do Ancien Régime, no sentido de controlar as decisões administrativas,
foi tida como salutar por aqueles que fizeram 1789; contudo, desse momento em
diante passaram a entender que já não se justificava esse poder, uma vez que
uma Administração por eles dirigida já não precisaria de sindicâncias externas.
Temiam, igualmente, que esses órgãos fossem hostis às ideias novas: é essa
desconfiança básica que leva à afirmação do princípio da separação de poderes.
Ora, as consequências desse princípio não seriam levadas até ao fim: se, no
Antigo Regime, o braço jurisdicional intervinha indevidamente no plano
administrativo, após 1789 é a administração que intervém na esfera da justiça –
como se a confusão de poderes, por ser feita assim, fosse menos perversa do que
era na forma inversa (como sublinhou Tocqueville).
Assim, se no Antigo Regime havia confusão
entre justiça e administração, após 1789 entre administração e justiça confusão
havia. Como se vê, apenas mudaram de posição o ramo que invadia e o que era
invadido. No fundo, o som produzido pelos instrumentos absolutistas era (quase)
o mesmo que o dos instrumentos liberais. E, se é para soar dessa forma (não
separação de poderes), não sei se o Stradivarius não será aquele que, entre
absolutismo e liberalismo, se diria ser o violino podre.
*
Sobre esta descoberta, v. "The Economist",
22/09/2012, p. 80; para fazer um juízo próprio sobre qual soa melhor, www.economist.com/fungalviolins
Lourenço Santos
Subturma 4
10 de Novembro de 2012
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